Saturday, September 10, 2016

Complexa Insignificância

De tempos em tempos o ser humano contempla sua própria existência. Inadvertida ou conscientemente, este processo muda o indivíduo. Esse mudança vem da alteração do ponto de vista que ele toma da realidade. Confesso que, no período de dois anos, passei por estes momentos um pouco mais do que deveria, mas a experiência foi iluminadora. Focar-me-ei em duas delas que exemplificam muito bem o estado mental daquele que se propõe  a estudar o universo:

1 - Insignificância

Do que é feito o universo? Existem diversas soluções para este enigma, mas se a intenção for compreender a composições dos elementos celestes, a resposta é assustadora! Planetas, estrelas, galáxias! Quase tudo no universo está em um não tão conhecido estado da matéria, o plasma (que ocorre quando um elemento no estado gasoso passa por uma temperatura tão extrema que os elétrons se desprendem dos núcleos dos átomos, transformando aquele elemento em íons soltos boiando em uma sopa de elétrons enlouquecidos. Eis o aether, matéria prima de estrelas! Estrelas estas que compõem quase a totalidade do preenchimento do céu noturno. Seu tamanho é tão extraordinariamente gigantesco que somos literalmente incapazes de conceber seu tamanho. Mesmo utilizando o artifício de uma pseudo-concepção do tamanho de nosso planeta visto por fora, ainda assim mal conseguimos compreender a distância entre os astros. Nós somos insignificantes comparados com nosso lindo planeta, que é insignificante comparado à nossa estrela, que é insignificante comparado à maior estrela que conhecemos, UY Scuti (tendo aproximadamente 1.500 vezes o raio do nosso sol). E esta é uma de um número que, contemplado por nossos olhos, estende-se ao infinito da população de astros no céu noturno.  A influência gravitacional destes colossos unida prende a galáxia como uma única estrutura imensuravelmente gigantesca para nossos padrões humanos! Por sua vez, a influência gravitacional das galáxias unida também mantém estruturas maiores no lugar, chamados aglomerados. Tudo isso, interagindo entre si, forma uma imensa estrutura organizada da qual vemos uma provavelmente infinitésima parte, o universo. Perto disso tudo o que somos nós? Comparando-me com o universo, a palavra "nada" não parece fazer jus.

2 - Complexidade

O que é o aether? Plasma! Um aglomerado de elementos químicos em um estado extremo de excitação de suas partículas. As estrelas são compostas de uma quantidade imensa de hidrogênio e hélio que, devido às condições extremas em seus núcleos (e um empurrãozinho do tunelamento quântico), fundem-se em elementos mais e mais pesados. Apesar de que, no final de sua vida uma estrela grande o suficiente explode, criando e lançando elementos pesadíssimos universo a fora, sua estrutura inicial é extremamente simples, sendo composta apenas de uma quantidade incontável dos átomos mais simples que conhecemos. Mas, e nós? A comparação da complexidade é inversamente proporcional à comparação do poder! A nossa composição é tão complexa, tão delicadamente equilibrada para que haja a vida, que neste respeito ofuscamos as estrelas! Claro que isso não muda seu tamanho e seu poder, mas nós, insignificantes humanos, somos complexos o suficiente ao ponto de termos sido confiados uma cognição que nos permite contemplar e apreciar os astros colossais, que por mais poderosos que possam ser, jamais nos contemplarão de volta.

Sim, se o fato de ser colossal e dotado de poder é algo deslumbrante e magnífico, a capacidade de conceber e apreciar estas qualidades também é tão impressionante quanto tê-las! Se pensarmos no universo como uma pintura feita por um talentoso Artista, poderíamos imaginar seu apreço pelas estrelas e galáxias que compõem quase toda a obra. Mas também poderíamos imaginar o carinho e a atenção dedicados à composição dos humanos, "detalhes" no contexto geral, mas com uma complexidade tamanha que talvez os colocasse em patamar de igualdade com o restante do quadro.

O universo é indescritivelmente maravilhoso. Mas nossa capacidade cognitiva de concebê-lo e contemplá-lo torna a cada um de nós tão vastos quanto estrelas.

Monday, February 22, 2016

Humildade vs Arrogância

Imagine: Você está em um restaurante sofisticado para um encontro romântico. O garçom, francês, lhe entregá com delicadeza o menu, para que você faça o pedido do prato desejado e o menu lhe apresenta duas opções: esterco de jumento ou salada de barata. O que você escolheria? Qual prato você gostaria de pedir? Fazemos este tipo de escolha todos os dias,  já que não temos uma terceira opção que não seja absurda, tirando a abstinência.
Em silêncio, presenciei discussões absurdas carregadas por argumentos infundados e improvisados. O que as pessoas hoje chamam  (ou têm a audácia de chamar) de música está mais proxima de grunhidos e estrondos do que de música de fato, e, ao ouvir a argumentação do por quê o "sertanejo universitario" oprimia o "funk pancadão" ou como o funkeiro de hoje é "injustamente marginalizado", comparado a pessoas que tinham seus corpos tatuados decadas atrás, evidenciam a completa alienação da realidade da maioria das pessoas que têm sua ínfima percepção do universo como completas verdade irrefutáveis,  independentemente do que os olhos e ouvidos lhe mostram. "Funk é cultura", dizem eles, "Você é preconceituoso", dizem eles, às vezes apenas com o olhar. Cultura é uma palavra que perdeu seu significado. Pense em uma pessoa culta (isto é,  cheia de cultura) e compare com o cidadão que, ao julgar-se regente sobre vida noturna da cidade, sai às ruas disparando alarmes de carros e destruindo o sossego dos infelizes que tiveram o infortúnio de estar em seu caminho. O Funk criado no Brasil não é cultura a ser aceita por uma população futura, é uma desconstrução cultural e intelectual causada por dois tipos de criminoso (que estão em associação): primariamente os líderes do tráfico de drogas nas favelas, quase que deuses aos seus próprios olhos, que investem nestes pseudo-cantores e usam suas apresentações para a lavagem de dinheiro de seus negócios, também se aproveitando da apologia ao uso de seu produto e à violência a seus inimigos que a popularização deste fenômeno proporciona; e, de forma secundaria,  o atual governo corrupto (e ilegítimo), que se julga uma elite iluminada preparada para decidir o futuro da humanidade, com o objetivo de desconstruir intelectualmente a população, transformando-os em completos idiotas imbecilizados facilmente conduzidos para qualquer direção. O investimento absurdo que o governo faz aos chamados "sertanejos universitários" também contribui para isso pois, apesar destes não serem tanto badalhocas na pelagem da cabra brasileira como o gênero citado anteriormente, abusam de um palavreado esdrúxulo e uma temática também imoral e idiotizante. A popularização destes dois gêneros (des)musicais joga cada vez mais as pessoas neste abismo de futilidade,  egoísmo,  promiscuidade e alienação de onde muitos provavelmente não sairão.

Mas não precisamos ir a extremos para ver essa desconstrução ocorrer em todo o mundo. Eu tive uma discussão com um aluno, que exemplifica claramente a mentalidade do jovem moderno. Este criticou, rejeitou e de forma grosseira insultou meu método de ensino por eu ter me usado de certo gênero musical para exemplificar o uso prático do inglês, enaltecendo seu gosto (questionável) acima de Mozart, Beethoven e Vivaldi. Minha reação, movida pelo amor à minha profissão e aos meus alunos, foi deixar bem claro que seu ponto de vista era equivocado. Sem parcialidade, demovi o meu gosto musical junto ao dele e mostrei como, na verdade, o clássico sempre está acima do popular e que as expressões "eu gosto" e "é bom" diferem completamente uma da outra. Aquilo que nos faz crescer como seres humanos é a verdadeira arte, aquilo que nos entretém é apenas isso, entretenimento, brincadeiras, bobagens que usamos para descansar os pensamentos. Qual a reação? Transformando-se de aluno para ex-aluno em algumas aulas, a arrogância com a qual fui atacado atribuiu-se, por paralaxe cognitiva, a mim!

E isso prossegue de forma consistente.

Eu amo aprender, estudo como forma de lazer. Seja a bíblia, seja física, seja astronomia, eu leio, aprendo e fico satisfeito. Mas também tenho plena consciência do quanto não sei (e a verdade é que eu não sei de nada). Só que, quando sou capaz de ajudar alguém com o pouco que sei, aí sou arrogante.

Qual a conclusão que chegamos?
Uma pessoa completamente alienada, com opiniões infundadas e improvisadas, mas coincidentes com as da maioria da sociedade, é humilde. Julga-se intelectual invencível e humilde ao absoluto que, ao perder uma discussão, viaja no tempo para mudar a história transformando-se assim em uma vítima de um arrogante prepotente "sabe-tudo" que "não sabe brincar".

Agora, aquele que reconhece sua ignorância e busca o conhecimento, deixando de lado suas opiniões preconceituosas para dar lugar ao verdadeiro saber, este é arrogante. Este é o monstro que veio humilhar o pobre-coitado que, mesmo estando certo de absolutamente tudo (pois nasceu com sabedoria superior de todos os assuntos), perde o debate para a sua arrogância monstruosa.

Eu me policio constantemente para ser uma pessoa humilde, mas talvez isso seja arrogancia  de minha parte.